terça-feira, 3 de março de 2009

Separação

Enxergo que sempre há
mesmo nas mais imbricadas conexões
o acontecimento da separação.
separar é estar junto...

a massa que a preenche
apenas pesa se a disjunção não é plena
a separação só acontece
se se conecta o ausente

ausência e presença
uma e mesma coisa:
desvia, seca, chama, resseca
mais precisa do que qualquer à vista

de nossas trilhas labirínticas
a separação é a linha de chegada
não queremos nem podemos ser um
juntos sabemo-nos separados

a gravidade não está
em lembrar que te perdi
aí é precisamente dor...
mas em perder que te lembrei

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Penumbrizamo-nos

Eu sei que:
verdejo as suas pêras
diagonizo suas molduras
pathifico suas folhas
pisco-alerto suas nuvens

mas você:
gramifica as minhas maçãs
guimbaliza meus quadros
ninhaliza minhas retas
ciscaliza minhas quedas-d'água

nós nos penumbrizamos

Esteta pobre

Mandei-te uma música
popular, brasileira
vejo beleza na beleza de outros
rir de pequenos casos
esta é a minha sina

Sou qualquer coisa passiva
um plano com braços
sentimentos estranhos me esbarram
perpendiculares e terceiros
quando cortam diagonais
é porque são meus

Eu, amontoado heterogêneo
refratar é o que me constitui
modifico velocidades...
às vezes me faço todo penumbra
não alquimizo substâncias
mas um feixe torna a se acender

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Virtuosidade

Sou vigiado e
simplesmente paraliso
queria que pensasses que
escrevo alguma importância
talvez qualquer coisa acerca da virtude, mas
virtude é nada mais que autoafirmação.
então é isto:
preciso me afirmar
e para isso ponho-me a escrever
sobre a virtude
Sou virtuoso, afinal!
convenço-o disso
já posso parar

O universal

No ponto de ônibus
topei com um sujeito
hermafrodita
talvez assexuado
no entanto, era uma forma
da beleza, não
era antes bom
Ele sobressaía nas cores
era por completo cinza
nunca experimentara tanta imponência
mas o estranho naquele estranho
era não ter ouvidos
nem olhos
apenas uma boca
e que boca, de fato
toquei nela
pensei em beijá-la
e nada, os lábios continuavam a mexer
ignoravam qualquer estímulo
mas não posso me privar de dizer:
a coisa fedia a mofo
era quase insuportável
mas parecia nada sentir
(a sua sorte era que não sentia mesmo)
eu apenas queria dizer-lhe
que há muitos conhecidos por aí
que não se cansam
de falar em sua pessoa
e adorariam encontrá-lo
mas para mim
era por demais desgraçado

Sabedoria de bolso

O oráculo ainda está de pé
o de Delfos e o de Marvão
Apenas posso dançar
em meio à fumaça
e aos gemidos, independentes
erra, antes é cego
aquele que não se comunica
com risos
procura certezas nos grãos de areia
um deles é feliz

Amanhã é o limite

Agora, penso no amanhã
e nada há de mais enfadonho
descobri que o erro
é pensar no depois de amanhã
nada tenho a dizer aos vermes
apenas àqueles que morrem logo
amanhã é o dia da morte
depois de amanhã: ressurreição
pensa no amanhã! Ele se basta
ou mais, é tudo