quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Virtuosidade

Sou vigiado e
simplesmente paraliso
queria que pensasses que
escrevo alguma importância
talvez qualquer coisa acerca da virtude, mas
virtude é nada mais que autoafirmação.
então é isto:
preciso me afirmar
e para isso ponho-me a escrever
sobre a virtude
Sou virtuoso, afinal!
convenço-o disso
já posso parar

O universal

No ponto de ônibus
topei com um sujeito
hermafrodita
talvez assexuado
no entanto, era uma forma
da beleza, não
era antes bom
Ele sobressaía nas cores
era por completo cinza
nunca experimentara tanta imponência
mas o estranho naquele estranho
era não ter ouvidos
nem olhos
apenas uma boca
e que boca, de fato
toquei nela
pensei em beijá-la
e nada, os lábios continuavam a mexer
ignoravam qualquer estímulo
mas não posso me privar de dizer:
a coisa fedia a mofo
era quase insuportável
mas parecia nada sentir
(a sua sorte era que não sentia mesmo)
eu apenas queria dizer-lhe
que há muitos conhecidos por aí
que não se cansam
de falar em sua pessoa
e adorariam encontrá-lo
mas para mim
era por demais desgraçado

Sabedoria de bolso

O oráculo ainda está de pé
o de Delfos e o de Marvão
Apenas posso dançar
em meio à fumaça
e aos gemidos, independentes
erra, antes é cego
aquele que não se comunica
com risos
procura certezas nos grãos de areia
um deles é feliz

Amanhã é o limite

Agora, penso no amanhã
e nada há de mais enfadonho
descobri que o erro
é pensar no depois de amanhã
nada tenho a dizer aos vermes
apenas àqueles que morrem logo
amanhã é o dia da morte
depois de amanhã: ressurreição
pensa no amanhã! Ele se basta
ou mais, é tudo